Kalt, kalt Berlin.

janeiro 31, 2013

 – Texto que achei no meio dos meus (confusos) arquivos.

Sentada numa birosca turca, enchendo o cu de café e esperando minha amiga Roberta sair da aula pra mais uma noite de esbórnia. Uma das poucas, aliás. O senso de sossego e responsabilidade (ainda que tardio) tem passado muito frequentemente por aqui. Neuköln é um bairro um tanto quanto barulhendo, confuso, Copacabana sem mar. E sem calor. Forço-me a escrever pq venho precisado colocar algo pra fora. Saudade do Brasil… Os dedos estão gelados, o inverno está perto.


Hoje uma menina sorriu pra mim no metrô. Tive a estranha sensação de que já a conhecia de algum lugar (estranha, pq não conheço muita gente por aqui). Não falei com ela. Engasguei com café, ela riu, e foi isso. Cheguei à minha estação, desci do trem. E me senti travada mais uma vez. Essa não sou eu, o inverno está perto.

Ontem, minha amiga Marisa me contou que conheceu um cara mais velho. Ela tem 26, ele 39. Me deu saudade dos meus inveterados 18 anos. saudade do Brasil…

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Parte 3.

junho 30, 2011

1. Começa a valer a partir de agora.

Após ter largado parte da bagagem num quarto e passado a chave na porta, começaria os preparativos. Essa era uma daquelas noites nada previsíveis, onde seus poucos amigos seriam figurantes (mais uma vez) em alguma de suas armações. Caixinhas de som na tomada, Scissor Sisters no talo. Adorava a potência daqueles trocinhos. Tirou da bolsa as latas de spray e começou o trabalho. Resolveu usar as paredes — já que seriam pintadas no dia seguinte… — como atrativo, chamariz. Preparar tudo não foi tão difícil, sua única dificuldade foi sua baixa estatura e ausência de algo que pudesse usar para aumentá-la. “Pé direito alto…” disse, rindo, imendando uma dancinha ridícula.

Tirou a muda de roupa da bolsa e foi tomar banho. Frio. O calor era infernal, típico de começo de verão. Janelas abertas, desfilava pelada pela casa, ainda na dancinha ridícula, enquanto secava os cabelos com a toalha. Assoviando alto, entoava os versos da música com o cabo da escova de cabelos na mão, enquanto pensava nas possibilidades e probabilidades… Resolveu ficar só nas possibilidades. Probabilidades, chatice. Ouviu o barulho estridente do interfone por cima da música. Bebidas. “Começa a valer a partir de agora.”

Com a primeira garrafa na mão, sentou no chão da sala e riu. Gargalhou. Riu alto daquela situação toda. Achava tudo aquilo muito patético, ridículo, divertido. Não conseguia entender como as pessoas se submetiam tão facilmente aos seus caprichos adolescentes e fetichistas. Entre goles, ainda gargalhava quando olhou pro relógio verde petróleo no pulso e constatou que já passava da hora. 

Interfone novamente. “Timing perfeito.”

2. A nova vizinha.

Puto da vida, entrou na garagem do prédio. Quem aquela petulantezinha achava que era pra brincar daquele jeito? Sentiu-se, enfim, aliviado ao devanear sobre nunca mais precisar vê-la. Ridícula.

Subiu os três lances de escada entre bufos e arfos. O celular toca, sua mãe. Recebeu meu recado? Buscou as chaves? Desculpe-me o trabalho, chego amanhã. Só nisso, cinco minutos de blá blá blá. Como se já não bastasse o dia ruim… Procurou as chaves no bolso, duas voltas na porta, entrou sem nem acender as luzes. Enfim, o silêncio de casa. Percorreu, no escuro, o caminho da porta de entrada até o bar, no canto da janela. Abaixou, tateou em busca da porta do armário e acendeu a luz interna. Remexeu por entre as garrafas, todas vazias. Praguejou baixinho, ao mesmo tempo em que apagava a luz e fechava o armário. 
Saiu, bateu a porta. A pé, andou por duas quadras até o posto de gasolina. Duas garrafas de uísque, analgésicos pro dia seguinte. Típica noite estressante, desistira até de ir à Urca. Ficaria em casa mesmo. 

Voltou pra casa sentindo calor. Noite quente, ir à Urca seria completamente agradável. Tsc. Pensaria naquilo depois. Chegou em casa, serviu o uisque e engoliu a dose inteira de uma vez. Mais calor ainda. Foi até a sala e abriu as janelas. Arqueou as costas e apoiou-se nos cotovelos, olhando para as pessoas que passavam na calçada. Ouvia música vinda de algum lugar. Olhou pra frente e assustou-se: O apartamento da frente que, até ontem estava vago, tinha todas as luzes acesas, janelas abertas e, em uma das paredes da sala, algo escrito na parede. Fechou as janelas num único movimento, de comunistas e vagabundas sua vida estava cheia.

3. Pára, me segura!

Acordou cedo, muito antes de sua normalidade. Acordou com a claridade do céu na cabeceira da cama. Anormal, para quem tinha o costume de fechar até a última nesga do blackout.
Ouviu risadas. Risadas altas, escandalosas, gritos, festejos histéricos, gargalhadas.
Vestiu a roupa de ginástica, desceu até a garagem esperando que esse nào fosse mais um empecilho à sua rotina. Fez a curva exigida pela rampa da garagem, enfiou o pé na embreagem, fez barulho. Uma garota, assustada. Um braço seguro por outro braço, uma garrafa contra sua vontade. Não hesitou.

Memorial 1

junho 9, 2011

Expectativa destrói. Uma das poucas coisas que esse tempo curto me deixou aprender em convivência.

No começo, toda a expectativa do mundo. Expectativa construída através de meias frases, tons mal entendidos de conversas irreais, conversas virtuais, conversas. A minha construção do que seria uma relação perfeita, e a minha conversa, e as confissões aos amigos, a agonia, alegria, excitação, nervosismo. Tudo junto no pacote da expectativa.

E aí as coisas começam a acontecer. E o carinho não é recebido da mesma forma. O ‘te amo’ não soa do mesmo jeito que soava na minha cabeça. A purpurina vai começando a sumir, levando a cor junto, trazendo o que eu agora entendo e realizo. Mas houve carinho. E houve cuidado. Na cabeça distante, na fala distraída, no amor dividido. Então a diferença sobre a qual questionei não veio de você, veio de mim. Da imagem que eu construía, do alimento que você deu (até sem perceber, admito) a uma semente que crescia e brotava só de um lado, no sertão. Será mesmo?

“E a leve impressão de que já vou tarde”. Na cabeça, tudo vira drama. Mil ideias, mil teorias, “por quê?”, “será?”, “eu ou você?”, e na hora de falar, silêncio. Não há o que falar, e nem motivo pra falar. Falar que foi bom, que curti, que aprendi, que vivi, gozei e gostei. Você já sabe disso tudo, você esteve lá também. Na normalidade e na lisergia. Eu senti, você sentiu. Sentimos igualmente? Timing diferente? Não sei…

Só sei que fui embora. Voltei. De uma despedida que achei que machucaria, de uma viagem durante a qual achei que choraria, mas não chorei. E não me machucou. Passei a noite acordada, acompanhada pelas estrelas da estrada e pelo frio da madrugada. Num desconforto que achei que me afetaria, deixei a cabeça voar em pensamentos, e ela voou. Voou pra longe do que achei que me atrairia. Voou pra longe de arrependimento, de raiva, de tristeza, e até a tal música de efeito que nos é conhecida não fez efeito nenhum.

Da expectativa ao ceticismo? Alívio.

Morreu aí, morreu aqui também. E achei que não morreria. E achei que tanto fazia, que nas regras que a gente estipula acaba embutindo os sentimentos junto. Morreu aqui, no vazio do dia seguinte, no vazio da viagem de volta, no vazio. Morreu. Sou grata a você pelos momentos, pelo sentimento, pelo amor. Amo você. Não estou triste, nem chateada, com raiva, com nada. Ainda te amo pelos mesmos motivos, ainda me atraem as mesmas qualidades e o sexo vai ser bom por muito tempo. Mas o sertão já tá começando a ficar pra trás.

E na minha cabeça já surgem as formas de Berlim.

Parte 2.

maio 7, 2009

Há muito acontecera e o psicólogo mantinha latente a preocupação com Maria Luiza. Que ela era diferente, disso ele sabia. Só não conseguia entender e encaixar bem os fatos numa ordem lógica: uma menina que marca uma consulta e o desmoraliza em seu próprio consultório, dizendo precisar de outro tipo de ajuda. Isso não era um acontecimento nada normal. Mas, com o passar do tempo, aos poucos a preocupação foi se transformando em indignação e passou a ser só mais um arquivo em sua memória. Como um professor que esquece o nome de alguns alunos, ele esquecera a visita de Maria Luiza. A única diferença dela para seus outros pacientes era sua ficha, que continha seu nome e uma grande interrogação em traço trêmulo.

1 – A moradia.

Morava perto do trabalho, no Cosme Velho. Terceiro andar de um prédio de quatro, nada mais que simpático. Dois quartos, banheiro, sala e cozinha, simples, pelos zeros que sobravam em sua conta bancária. Decoração simples, branca, clássica, tudo muito iluminado. Muitos livros espalhados pela casa, da psicologia à antropologia. Clichés que não impunham nenhum mistério, era tudo muito óbvio. Inclusive ele.

Não tinha plantas nem bichos de estimação, só algumas miniaturas de carros e seus cachimbos de “de vez em quando”. A casa tinha cheiro amadeirado – em parte pelo perfume que usava, e pelo ar fresco dos arredores do corcovado. – e iluminação quente, que trazia ao sofá um ar ainda mais aconchegante. Morava ali desde que completara dezoito anos, um presente pelo louvor da faculdade pública. Presente do pai, que morrera sem ver o filho formado e deixara sua mãe no auge da idade adulta. (Que, pelo visto, não se prendeu à tristeza e resolveu viajar pelo mundo. Afinal, o morto não era ela.) Isso trouxera a ele uma certa repugnância. Falava com ela uma vez por mês e estava tudo certo. Nunca o visitava, achava o seu muquifo uma habitação desagradável. Na verdade, ele até achava melhor. Não gostava de fazer café e não tinha costume de comprar cerveja. Tinha preguiça de recebê-la. Era, afinal, um cara simples.

– Pausa para descrição –

Rapaz alto, cabelos escuros e olhos claros, traços italianos, sem nenhum tipo de charme. Mantinha uma expressão branda que passava a segurança de quem tem comportamento morno, desacreditado ao jorrar veneno através do olhar.

Gostava de se punir por ser vingativo e nutria uma tara não correspondida pela secretária, sua grande frustração. Apesar de calmo, irritava-se ao sentir-se fora do controle de qualquer tipo de situação – tinha, aliás, estado fora do controle ao conhecer Maria Luiza – o que logo se resolve com duas generosas doses de uísque.

Seus amigos, os dois únicos, diziam-no para procurar uma namorada ou – por ironia, talvez de algum Deus ou destino – um psicólogo.

2 – Habituée

Era um homem de muitos gostos. Gostava de provar coisas novas, mas idolatrava seus hábitos. Frequentava sempre os mesmos bares, jantava em hotéis, sempre desacompanhado e sem sequer olhar pro balcão – escorting nunca o atraiu. Comia e ia embora, sem café. Era entregue à rotina, que só era quebrada quando lhe aparecia alguma obrigação como a que sua secretária anunciara numa sexta-feira: sua mãe viajara para Angra e pedira que fosse a Niterói buscar as chaves de um apartamento que seria devolvido. Ficava sempre levemente impaciente com certos caprichos maternos que interrompiam sua rotina, mesmo não sendo caprichos e só por implicância.

O dia passara lentamente e mesmo depois de terminadas as consultas do dia, ainda era cedo. A cada minuto que passava sentia-se mais e mais incomodado com a “tarefa” que lhe fora designada; o que, na verdade, não deveria acontecer, já que recebia parte dos lucros desse aluguel. Dada a hora marcada, pegou o carro e foi.

3 – A ponte.

Adorava a paisagem da ponte Rio-Niterói. Costumava lembrar de uma namorada que dizia que “gostaria da ponte só de lembrar que gostava”. Há muito tempo não passava por ali, usava as barcas; e agora conseguia entender o que dizia Luiza.

Luiza… O nome o fez lembrar de algo relacionado à entrega do apartamento, mas acabou por perder sua atenção no trânsito parado e na música que vinha do carro vizinho. Sentia inveja dos carros que vinham pela pista de sentido oposto. A paisagem era linda, mas cansava-lhe os olhos. Gostaria de sair logo dali. Aproximou-se do pedágio, pagou e viu-se livre do trânsito. Logo estaria voltando e pensava em passar no restaurante de Sexta-feira. Era uma noite perfeita para ir à Urca.

4 – “Vou deixar a casa aberta.”

Estacionou o carro a duas quadras do prédio, quis ir caminhando para lá. Era um prédio pequeno, de cinco ou seis andares, bem charmoso. Arejado e bem simples. Identificou-se no interfone, disse ao porteiro que alguém o esperava no 302 para a entrega das chaves. Ao passar por ele ouviu um resmungo, algo que envolvia “saudades” e “nossa menina”. Achou melhor não dar trela e começou a subir as escadas. Primeiro andar, segundo andar… Corredores iguais. Chegou ao terceiro. 302. A porta estava encostada. Porta que dava acesso à sala, se bem lembrava. Tocou a campainha, esperou. Nada. Bateu na porta. Ainda, nada. Resolveu entrar. Pensou que isso seria o mais impróprio a se fazer, mas tudo o que queria era sair logo dali. Entrou, caminhou pela sala vazia e foi até a varanda, que estava aberta. Passou pela porta de vidro e viu, no canto da grade, uma menina sentada com as pernas para fora, balançando. Distraída, assustou-se com o barulho da porta. Levantou-se, desajeitada, pedindo desculpas por não ter escutado a campainha. Um fio gelado de ansiedade invadiu o corpo do rapaz quando lembrou-se do que sua mãe tinha dito a respeito da entrega do apartamento: “É uma menina, Luiza. Maria Luiza, ou algo assim”. Era ela, a menina que invadira seu consultório.

Estava diferente. Tinha os cabelos mais curtos, lisos, na altura do queixo. Estava mais magra. Apesar disso, tinha uma aparência mais saudável. Talvez estivesse realmente perturbada por algum problema, durante a visita ao seu consultório. Assim que a viu, abriu a boca para perguntar-lhe a respeito da visita que fizera ao consultório. Percebendo que ele libertaria um batalhão de perguntas, abriu a matraca antes que ele pudesse sequer respirar. “É que eu moro aqui sozinha, sabe… E esse apartamento me trouxe muitas coisas boas. Mas agora é realmente a hora de partir, preciso deixar algumas coisas pra trás. Bom, acho que tá tudo em ordem… As paredes foram pintadas de branco, como combinado, apesar de achar que o lugar fica bem mais simpático com tudo colorido.” Abaixou, pegou a mochila e um vaso de flores que estavam no chão e dirigiu se a porta, ainda falando, sem parar. Amenidades sobre o apartamento. Ele tentava interrompê-la a cada pausa que ela fazia pra respirar, mas não conseguia. Ela era mais rápida. Ele, abasbacado com toda a situação, mal percebera que já estava com as chaves do apartamento na mão e a menina já na porta, despedindo-se. “Muito obrigada, Lúcio. Lúcio, não é?” Ela parou e olhou-o por um tempo, esperando a confirmação. Ele fez que sim com a cabeça, incrédulo, e pôde perceber um disfarçado sorriso de deboche no rosto de Maria Luiza, enquanto o rastro dela descia as escadas.

Aquilo não acabaria ali. Não, aquela menina atrevida teria de escutar o que tinha a dizer e responder ao que ele perguntasse. Bateu a porta do apartamento e desceu correndo atrás dela. Quando chegou à portaria, ela fazia sinal a um táxi na rua, que parava para que ela entrasse. Saiu correndo atrás do táxi, pedindo que parasse, mas nada aconteceu. O táxi azul seguira seu caminho como se ele não existisse.

Parte 1.

março 18, 2009

1 – O bairro das Laranjeiras.

Procurava, em uma rua muito larga, um sobrado de número 52. Não sabia o nome do bairro, mas, vez ou outra, avistava o corcovado por entre prédios. Procurava insistentemente há quinze minutos e parecia perdida, simplesmente por ter preguiça de ouvir as respostas sempre muito compridas e desnecessárias ao pedir informações. Pessoas simpáticas e gentis além do necessário, costumava anotar mentalmente.
Procurava, com extrema pressa por não saber se agüentaria aquilo por muito tempo; todo aquele discurso ensaiado poderia, de repente, sair pelos poros junto com o suor provocado pelo calor infernal e isso não era lá uma idéia muito agradável. Não era muito boa naquele tal improviso, naquela “conversação” onde o que se diz depende da resposta do outro. Procurava aquele lugar com algo a dizer e o diria sem interrupções, fazia questão. Repassando o discurso mentalmente, assustou-se ao dar de cara com o sobrado entre dois enormes prédios comerciais.

2 – A secretária.

Não que fosse insignificante, longe disso: o sobrado tinha uma certa aparência acolhedora. Janelas e portas bem grandes, arquitetura colonial. Azulejos coloridos enfeitavam o muro do lado de fora, baixo, com grades pintadas de branco. A menina atravessou o portão de grade, tocou a campainha e esperou, ansiosa, entortando os pés ao parar em frente à grande porta de madeira. Uma secretária de ar simpático abriu a porta e convidou-a a entrar. Aparentava seus 35 anos. Usava uma saia esvoaçante de seda florida e sapatinhos iguais aos de uma colegial, que provocavam um ecoante “tec-tec” no chão de mármore branco.
Mostrou à menina uma sala com algumas poltronas e pediu que aguardasse, que já seria atendida. A menina tiquetaqueou ao som dos sapatos da secretária que andava pela sala arrumando papeis aqui e ali, e repassou seu discurso pela última vez.

– Pausa para descrição –

Não se encaixava em nenhum padrão. Menina, de cabelos não muito loiros nem muito castanhos. Olhos nem muito claros, nem muito escuros. Nem muito baixa, nem alta, nem gorda, nem magra, nem nada. Seus atributos físicos resumiam-se às fartas coxas que herdara da mãe e os olhos levemente puxados que herdara do pai. Achava seus pés e mãos bonitos, nada mais.
Falava muito. Muito. Consigo mesma. Não tinha a mínima noção de algum talento, de sua inteligência ou de alguma aptidão para algo. Só sabia que sabia muito, ouvia de tudo e via mais do que devia. E era só, só isso. Gostava de ser assim. Não gostava de destaque, não era de muitos amigos e, aos poucos que tinha, restava a tarefa de tentar mudar ou acrescentar nela alguma coisa, um “ar de graça”, como gostavam de dizer. Algo que soava, para ela, como o “tec-tec” dos sapatos da secretária.

3 – Coisa de palpite de mulher que é mãe.

A secretária chama seu nome, “Maria Luiza”. Composto, com Z, como sua mãe queria que fosse desde o dia em que descobrira estar grávida, no ano de 1991. De uma menina, tinha certeza. Como sabia? Só sentia. Coisa de mãe que é coisa de mãe quando dá certo e palpite de mulher quando não dá.
Maria Luiza, trêmula, caminhou até a porta que a secretária segurava aberta para ela. O consultório mais parecia uma sala, com sofás, muitas estantes com livros, livrinhos, livrões e coleções inteiras deles. Tudo com o mesmo estilo “muito colonial”. O doutor irá atendê-la dentro de instantes, fique à vontade.
Mas a menina, coitada, estática, ali entrou e em pé ficou. Perguntava a seus botões, como sempre aos seus botões, se estava enlouquecendo, tendo um ataque. Não obteve resposta, como nunca obtivera antes, até que o doutor (Lúcio Góes, pela plaquinha em cima da mesa) entrou no consultório por uma outra porta, que mais parecia uma porta de lavabo, e, com aquela aparência simpática presente em todos os rostos que Maria Luiza via e detestava, convidou-a a sentar em um dos sofás.

4 – O Discurso sem resposta.

“Eu não entrei aqui atrás de um terapeuta. Não acredito em terapia, não acredito em psicologia. Não adianta tentar me analisar, eu já sei tudo sobre os problemas que tenho e coisas que preciso. Sei que eu tenho paranóias, sei o que falta e o que sobra na minha vida e sei definir a minha personalidade, já aprendi tudo isso quando eu li os mesmos livros que o senhor, doutor.” – respirou pesadamente e as primeiras (e únicas) lágrimas começaram a escorrer. Quando recomeçou o discurso, qualquer outra forma de expressão sumiu completamente de seu rosto, como se direcionasse, indiretamente, toda a atenção ao que dizia. Outras explicações e descrições desnecessárias ao leitor foram feitas por aproximadamente 3 minutos, numa fala muito rápida e levemente coloquial, apesar de muito clara. Seguiram algumas hesitações, sua respiração arfante procurava acalmar-se. – “O que vim pedir ao senhor, doutor Lúcio…” – soluços. Maria Luiza apalpou a cintura, nervosa, atrás de sua bolsa que lá estava pendurada e ao achá-la, pegou um lenço e fez que assoaria o nariz. Desmaiou.

5 – Dissimulação.

O médico, que amparara a menina, tentava, desajeitado, carregá-la para o sofá. Deitou-a e tentou acordá-la, sacudindo-a levemente, chamando seu nome. Maria Luiza acordou pouco depois, assustada, levantou desesperada e saiu correndo, largando o lenço para trás. Passou pela secretária que a olhara com um certo ar de incredulidade, abriu a porta e correu pelas escadas. Ao passar pelo portão, chamou o primeiro táxi que viu, nele entrou e partiu. De dentro do táxi avistou o médico, ainda perdido, parado, na porta do sobrado. Assim que parou de arfar e recuperou o fôlego, desatou a rir. Gargalhada gostosa, daquelas bem altas e demoradas. Começara ali sua atuação.

Sobre amor, ódio e o pior dia da minha vida;

dezembro 28, 2008

Logo após três semanas de esperança, um único dia de pura lágrima consegue arruinar tudo. Vontade de arrancar os cabelos, de me jogar no chão e definhar. Na verdade, não é nada disso. O que dói é saber que tudo aquilo que aconselham e que é completamente correto e óbvio é justamente o que não consigo absorver, entender e praticar. O que dói é saber que por pura teimosia, vontade ou apenas saudade, deixei acontecer, para que me machucasse outra vez, e outra, e mais uma.

Durante noites, madrugadas, manhãs e nasceres de sol foram feitos poemas baseados em olhares, entendimentos, possível amor de dois anos atrás, o que é pura besteira. O que me surge ao olhar é apenas vontade de brincar. Vontade de machucar, vontade de tornar ínfimo o outro. O que não vai acontecer, por menor que seja o orgulho e por maior que seja a ingenuidade. Eu garanto a vocês.

Sobre a culpa.

outubro 20, 2008

Que ninguém se engane, a culpa não faz parte de ninguém nem de nenhum sentimento; é algo inexplicável que nos leva à justificativa e a pedir por misericórdia. – adoro afirmar, na escrita ou em voz alta, o significado que os sentimentos, ações ou acontecimentos tem pra mim: parece-me que a afirmação torna tudo mais real e que essa é uma realidade, e não algo só meu. Me tira, um pouco, o vazio. É como se alguém me ouvisse e o tempo todo concordasse – uma alma gêmea… Não. Me perdôem. Estava a delirar.

Misericórdia essa extremamente falsa e vil, muitas vezes exprimida através de frases requintadas feitas para convencer e satisfazer às mentes mais fracas, como um daqueles livros em branco; vazio. O perdão é para os fracos. Forte mesmo é aquele que se apega à sua solidão e reduz-se a si, cria formas de se libertar da dor e da infelicidade e então da culpa, se enrola em rodeios de auto-controle e guarda o perdão para si, se perdoa e é egoísta a ponto de não dividir com o outro nem mesmo o que sente por ele. Por isso, se torna fraco. Promíscuo e fraco. E somos todos fracos e burros, mas nunca misericordiosos. Não perdoamos a ninguém além de nós mesmos e somos fracos e fortes e fracos e fortes…

Sobre 2 ou 3 dias, e o Português.

outubro 8, 2008

Memórias de um conto lésbico que era um conto e num piscar de olhos não era mais. Virou realidade como brincadeira e de brincar, já chega. Brincadeira é coisa de meninas. Isso me confunde um pouco, como as regras do Português. Digo, a tal reforma. Mas, se eu parar para prestar atenção e raciocinar um pouco, é tudo muito simples e o que existe, realmente, é alarde. Tamanho o exagero sempre confunde, e agora me pergunto se o que realmente me confunde são as coisas de meninas, as regras do Português ou a confusão disso tudo. Cá estou eu, confusa, outra vez.

Lesbianismo nunca me interessou. Cronicas e contos também não, mas cá estou. Por essas e outras não acho justo expor minha afeição à heterossexualidade, seria muita contradição. E por mais contraditório que seja o ser humano, detesto essa característica e procuro evitar.

Não que não tenha tentado. O lesbianismo, digo. Apesar de não ter parecido real, tudo aconteceu de 2 ou 3 dias pra cá. Algo que me pareça precipitado pode parecer concreto quando analisado de outro ponto de vista e só é necessário mudá-lo. Feito isso, quase que sem expectativas, veio a surpresa da simpatia e me senti um pouco decepcionada por não ser a minha praia. Já as novas regras do Português e sua quase-inutilidade não me acrescentam nada. É que não custa nada mencionar.

Ah. Admiro a bissexualidade. De verdade. Acho incrível o fato de que algumas pessoas conseguem ter tesão em homens e mulheres. Claro que com uma pitada de recalque, porque comigo não aconteceu. E vale excluir a pseudagem, acima de tudo. Não existe nada pior do que gente que finge. Asco total. E que os “bis” levem uma boa vida ao lado dos “homos” e “héteros”, à base de um bem dito Português. Fico aqui, de cima, pagando de voyeur: o passatempo dos novos tempos.

Sobre colegas.

outubro 6, 2008

Eram todos estúpidos e eram todos iguais mas tinham até um certo talento, conseguiam me entreter. Mesmo que, quase sempre, da forma mais infantil possível. Acho um pouco divertido. Parecem uns bobos-da-corte, sem o senso de ironia. Aí fica a parte que me entedia; infelizmente, dependo de ironia. Dependência, em parte, sangrenta. Não bastam minhas inúmeras tentativas de introdução ao mundo racional, continuam agindo como animais desesperados, loucos por aceitação. A FALTA DE IRONIA ACABA COM A HUMANIDADE.
Interessante, também, o fato de que volta e meia me aparecem alguns comentários que me ecoam, como subversões. Não vale a pena dissertar sobre o assunto, porque a resposta ao subversivo é, quase sempre, mais óbvia que a ponta do seu nariz. Perde a graça, quando a gente descobre.
Os que me irritam em prioridade são os seres estrogenários. Digo, em maioria. Todas aquelas frescurinhas e irritações. Que virem homens! A presença se tornaria mais confortável, além de que, ninguém teria interesse em fuçar a lama de outros porcos. A lama delas, vale acrescentar, é politicamente correta, e isso me enoja. Sobre os garotos, porém, poupo comentários.
Continuam todos iguais, mesmo depois da caracterização. É difícil valorizar a fuga ao padrão, nos dias de hoje. A vida é difícil e a convivência e o auto-conhecimento também são. Mas tudo continua perdendo a graça, quando descobrimos. Pobres pontas de nariz.