Memorial 1

Expectativa destrói. Uma das poucas coisas que esse tempo curto me deixou aprender em convivência.

No começo, toda a expectativa do mundo. Expectativa construída através de meias frases, tons mal entendidos de conversas irreais, conversas virtuais, conversas. A minha construção do que seria uma relação perfeita, e a minha conversa, e as confissões aos amigos, a agonia, alegria, excitação, nervosismo. Tudo junto no pacote da expectativa.

E aí as coisas começam a acontecer. E o carinho não é recebido da mesma forma. O ‘te amo’ não soa do mesmo jeito que soava na minha cabeça. A purpurina vai começando a sumir, levando a cor junto, trazendo o que eu agora entendo e realizo. Mas houve carinho. E houve cuidado. Na cabeça distante, na fala distraída, no amor dividido. Então a diferença sobre a qual questionei não veio de você, veio de mim. Da imagem que eu construía, do alimento que você deu (até sem perceber, admito) a uma semente que crescia e brotava só de um lado, no sertão. Será mesmo?

“E a leve impressão de que já vou tarde”. Na cabeça, tudo vira drama. Mil ideias, mil teorias, “por quê?”, “será?”, “eu ou você?”, e na hora de falar, silêncio. Não há o que falar, e nem motivo pra falar. Falar que foi bom, que curti, que aprendi, que vivi, gozei e gostei. Você já sabe disso tudo, você esteve lá também. Na normalidade e na lisergia. Eu senti, você sentiu. Sentimos igualmente? Timing diferente? Não sei…

Só sei que fui embora. Voltei. De uma despedida que achei que machucaria, de uma viagem durante a qual achei que choraria, mas não chorei. E não me machucou. Passei a noite acordada, acompanhada pelas estrelas da estrada e pelo frio da madrugada. Num desconforto que achei que me afetaria, deixei a cabeça voar em pensamentos, e ela voou. Voou pra longe do que achei que me atrairia. Voou pra longe de arrependimento, de raiva, de tristeza, e até a tal música de efeito que nos é conhecida não fez efeito nenhum.

Da expectativa ao ceticismo? Alívio.

Morreu aí, morreu aqui também. E achei que não morreria. E achei que tanto fazia, que nas regras que a gente estipula acaba embutindo os sentimentos junto. Morreu aqui, no vazio do dia seguinte, no vazio da viagem de volta, no vazio. Morreu. Sou grata a você pelos momentos, pelo sentimento, pelo amor. Amo você. Não estou triste, nem chateada, com raiva, com nada. Ainda te amo pelos mesmos motivos, ainda me atraem as mesmas qualidades e o sexo vai ser bom por muito tempo. Mas o sertão já tá começando a ficar pra trás.

E na minha cabeça já surgem as formas de Berlim.

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