Parte 1.

1 – O bairro das Laranjeiras.

Procurava, em uma rua muito larga, um sobrado de número 52. Não sabia o nome do bairro, mas, vez ou outra, avistava o corcovado por entre prédios. Procurava insistentemente há quinze minutos e parecia perdida, simplesmente por ter preguiça de ouvir as respostas sempre muito compridas e desnecessárias ao pedir informações. Pessoas simpáticas e gentis além do necessário, costumava anotar mentalmente.
Procurava, com extrema pressa por não saber se agüentaria aquilo por muito tempo; todo aquele discurso ensaiado poderia, de repente, sair pelos poros junto com o suor provocado pelo calor infernal e isso não era lá uma idéia muito agradável. Não era muito boa naquele tal improviso, naquela “conversação” onde o que se diz depende da resposta do outro. Procurava aquele lugar com algo a dizer e o diria sem interrupções, fazia questão. Repassando o discurso mentalmente, assustou-se ao dar de cara com o sobrado entre dois enormes prédios comerciais.

2 – A secretária.

Não que fosse insignificante, longe disso: o sobrado tinha uma certa aparência acolhedora. Janelas e portas bem grandes, arquitetura colonial. Azulejos coloridos enfeitavam o muro do lado de fora, baixo, com grades pintadas de branco. A menina atravessou o portão de grade, tocou a campainha e esperou, ansiosa, entortando os pés ao parar em frente à grande porta de madeira. Uma secretária de ar simpático abriu a porta e convidou-a a entrar. Aparentava seus 35 anos. Usava uma saia esvoaçante de seda florida e sapatinhos iguais aos de uma colegial, que provocavam um ecoante “tec-tec” no chão de mármore branco.
Mostrou à menina uma sala com algumas poltronas e pediu que aguardasse, que já seria atendida. A menina tiquetaqueou ao som dos sapatos da secretária que andava pela sala arrumando papeis aqui e ali, e repassou seu discurso pela última vez.

- Pausa para descrição –

Não se encaixava em nenhum padrão. Menina, de cabelos não muito loiros nem muito castanhos. Olhos nem muito claros, nem muito escuros. Nem muito baixa, nem alta, nem gorda, nem magra, nem nada. Seus atributos físicos resumiam-se às fartas coxas que herdara da mãe e os olhos levemente puxados que herdara do pai. Achava seus pés e mãos bonitos, nada mais.
Falava muito. Muito. Consigo mesma. Não tinha a mínima noção de algum talento, de sua inteligência ou de alguma aptidão para algo. Só sabia que sabia muito, ouvia de tudo e via mais do que devia. E era só, só isso. Gostava de ser assim. Não gostava de destaque, não era de muitos amigos e, aos poucos que tinha, restava a tarefa de tentar mudar ou acrescentar nela alguma coisa, um “ar de graça”, como gostavam de dizer. Algo que soava, para ela, como o “tec-tec” dos sapatos da secretária.

3 – Coisa de palpite de mulher que é mãe.

A secretária chama seu nome, “Maria Luiza”. Composto, com Z, como sua mãe queria que fosse desde o dia em que descobrira estar grávida, no ano de 1991. De uma menina, tinha certeza. Como sabia? Só sentia. Coisa de mãe que é coisa de mãe quando dá certo e palpite de mulher quando não dá.
Maria Luiza, trêmula, caminhou até a porta que a secretária segurava aberta para ela. O consultório mais parecia uma sala, com sofás, muitas estantes com livros, livrinhos, livrões e coleções inteiras deles. Tudo com o mesmo estilo “muito colonial”. O doutor irá atendê-la dentro de instantes, fique à vontade.
Mas a menina, coitada, estática, ali entrou e em pé ficou. Perguntava a seus botões, como sempre aos seus botões, se estava enlouquecendo, tendo um ataque. Não obteve resposta, como nunca obtivera antes, até que o doutor (Lúcio Góes, pela plaquinha em cima da mesa) entrou no consultório por uma outra porta, que mais parecia uma porta de lavabo, e, com aquela aparência simpática presente em todos os rostos que Maria Luiza via e detestava, convidou-a a sentar em um dos sofás.

4 – O Discurso sem resposta.

“Eu não entrei aqui atrás de um terapeuta. Não acredito em terapia, não acredito em psicologia. Não adianta tentar me analisar, eu já sei tudo sobre os problemas que tenho e coisas que preciso. Sei que eu tenho paranóias, sei o que falta e o que sobra na minha vida e sei definir a minha personalidade, já aprendi tudo isso quando eu li os mesmos livros que o senhor, doutor.” – respirou pesadamente e as primeiras (e únicas) lágrimas começaram a escorrer. Quando recomeçou o discurso, qualquer outra forma de expressão sumiu completamente de seu rosto, como se direcionasse, indiretamente, toda a atenção ao que dizia. Outras explicações e descrições desnecessárias ao leitor foram feitas por aproximadamente 3 minutos, numa fala muito rápida e levemente coloquial, apesar de muito clara. Seguiram algumas hesitações, sua respiração arfante procurava acalmar-se. – “O que vim pedir ao senhor, doutor Lúcio…” – soluços. Maria Luiza apalpou a cintura, nervosa, atrás de sua bolsa que lá estava pendurada e ao achá-la, pegou um lenço e fez que assoaria o nariz. Desmaiou.

5 – Dissimulação.

O médico, que amparara a menina, tentava, desajeitado, carregá-la para o sofá. Deitou-a e tentou acordá-la, sacudindo-a levemente, chamando seu nome. Maria Luiza acordou pouco depois, assustada, levantou desesperada e saiu correndo, largando o lenço para trás. Passou pela secretária que a olhara com um certo ar de incredulidade, abriu a porta e correu pelas escadas. Ao passar pelo portão, chamou o primeiro táxi que viu, nele entrou e partiu. De dentro do táxi avistou o médico, ainda perdido, parado, na porta do sobrado. Assim que parou de arfar e recuperou o fôlego, desatou a rir. Gargalhada gostosa, daquelas bem altas e demoradas. Começara ali sua atuação.

Uma resposta para “Parte 1.”

  1. Andrezza Disse:

    continuação KDKDKDKD

    sacanagem ¬¬

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