1. Começa a valer a partir de agora.
Após ter largado parte da bagagem num quarto e passado a chave na porta, começaria os preparativos. Essa era uma daquelas noites nada previsíveis, onde seus poucos amigos seriam figurantes (mais uma vez) em alguma de suas armações. Caixinhas de som na tomada, Scissor Sisters no talo. Adorava a potência daqueles trocinhos. Tirou da bolsa as latas de spray e começou o trabalho. Resolveu usar as paredes — já que seriam pintadas no dia seguinte… — como atrativo, chamariz. Preparar tudo não foi tão difícil, sua única dificuldade foi sua baixa estatura e ausência de algo que pudesse usar para aumentá-la. “Pé direito alto…” disse, rindo, imendando uma dancinha ridícula.
Tirou a muda de roupa da bolsa e foi tomar banho. Frio. O calor era infernal, típico de começo de verão. Janelas abertas, desfilava pelada pela casa, ainda na dancinha ridícula, enquanto secava os cabelos com a toalha. Assoviando alto, entoava os versos da música com o cabo da escova de cabelos na mão, enquanto pensava nas possibilidades e probabilidades… Resolveu ficar só nas possibilidades. Probabilidades, chatice. Ouviu o barulho estridente do interfone por cima da música. Bebidas. “Começa a valer a partir de agora.”
Com a primeira garrafa na mão, sentou no chão da sala e riu. Gargalhou. Riu alto daquela situação toda. Achava tudo aquilo muito patético, ridículo, divertido. Não conseguia entender como as pessoas se submetiam tão facilmente aos seus caprichos adolescentes e fetichistas. Entre goles, ainda gargalhava quando olhou pro relógio verde petróleo no pulso e constatou que já passava da hora.
Interfone novamente. “Timing perfeito.”
2. A nova vizinha.
Puto da vida, entrou na garagem do prédio. Quem aquela petulantezinha achava que era pra brincar daquele jeito? Sentiu-se, enfim, aliviado ao devanear sobre nunca mais precisar vê-la. Ridícula.
Subiu os três lances de escada entre bufos e arfos. O celular toca, sua mãe. Recebeu meu recado? Buscou as chaves? Desculpe-me o trabalho, chego amanhã. Só nisso, cinco minutos de blá blá blá. Como se já não bastasse o dia ruim… Procurou as chaves no bolso, duas voltas na porta, entrou sem nem acender as luzes. Enfim, o silêncio de casa. Percorreu, no escuro, o caminho da porta de entrada até o bar, no canto da janela. Abaixou, tateou em busca da porta do armário e acendeu a luz interna. Remexeu por entre as garrafas, todas vazias. Praguejou baixinho, ao mesmo tempo em que apagava a luz e fechava o armário.
Saiu, bateu a porta. A pé, andou por duas quadras até o posto de gasolina. Duas garrafas de uísque, analgésicos pro dia seguinte. Típica noite estressante, desistira até de ir à Urca. Ficaria em casa mesmo.
Voltou pra casa sentindo calor. Noite quente, ir à Urca seria completamente agradável. Tsc. Pensaria naquilo depois. Chegou em casa, serviu o uisque e engoliu a dose inteira de uma vez. Mais calor ainda. Foi até a sala e abriu as janelas. Arqueou as costas e apoiou-se nos cotovelos, olhando para as pessoas que passavam na calçada. Ouvia música vinda de algum lugar. Olhou pra frente e assustou-se: O apartamento da frente que, até ontem estava vago, tinha todas as luzes acesas, janelas abertas e, em uma das paredes da sala, algo escrito na parede. Fechou as janelas num único movimento, de comunistas e vagabundas sua vida estava cheia.
3. Pára, me segura!
Acordou cedo, muito antes de sua normalidade. Acordou com a claridade do céu na cabeceira da cama. Anormal, para quem tinha o costume de fechar até a última nesga do blackout.
Ouviu risadas. Risadas altas, escandalosas, gritos, festejos histéricos, gargalhadas.
Vestiu a roupa de ginástica, desceu até a garagem esperando que esse nào fosse mais um empecilho à sua rotina. Fez a curva exigida pela rampa da garagem, enfiou o pé na embreagem, fez barulho. Uma garota, assustada. Um braço seguro por outro braço, uma garrafa contra sua vontade. Não hesitou.