Há muito acontecera e o psicólogo mantinha latente a preocupação com Maria Luiza. Que ela era diferente, disso ele sabia. Só não conseguia entender e encaixar bem os fatos numa ordem lógica: uma menina que marca uma consulta e o desmoraliza em seu próprio consultório, dizendo precisar de outro tipo de ajuda. Isso não era um acontecimento nada normal. Mas, com o passar do tempo, aos poucos a preocupação foi se transformando em indignação e passou a ser só mais um arquivo em sua memória. Como um professor que esquece o nome de alguns alunos, ele esquecera a visita de Maria Luiza. A única diferença dela para seus outros pacientes era sua ficha, que continha seu nome e uma grande interrogação em traço trêmulo.
1 – A moradia.
Morava perto do trabalho, no Cosme Velho. Terceiro andar de um prédio de quatro, nada mais que simpático. Dois quartos, banheiro, sala e cozinha, simples, pelos zeros que sobravam em sua conta bancária. Decoração simples, branca, clássica, tudo muito iluminado. Muitos livros espalhados pela casa, da psicologia à antropologia. Clichés que não impunham nenhum mistério, era tudo muito óbvio. Inclusive ele.
Não tinha plantas nem bichos de estimação, só algumas miniaturas de carros e seus cachimbos de “de vez em quando”. A casa tinha cheiro amadeirado – em parte pelo perfume que usava, e pelo ar fresco dos arredores do corcovado. – e iluminação quente, que trazia ao sofá um ar ainda mais aconchegante. Morava ali desde que completara dezoito anos, um presente pelo louvor da faculdade pública. Presente do pai, que morrera sem ver o filho formado e deixara sua mãe no auge da idade adulta. (Que, pelo visto, não se prendeu à tristeza e resolveu viajar pelo mundo. Afinal, o morto não era ela.) Isso trouxera a ele uma certa repugnância. Falava com ela uma vez por mês e estava tudo certo. Nunca o visitava, achava o seu muquifo uma habitação desagradável. Na verdade, ele até achava melhor. Não gostava de fazer café e não tinha costume de comprar cerveja. Tinha preguiça de recebê-la. Era, afinal, um cara simples.
- Pausa para descrição -
Rapaz alto, cabelos escuros e olhos claros, traços italianos, sem nenhum tipo de charme. Mantinha uma expressão branda que passava a segurança de quem tem comportamento morno, desacreditado ao jorrar veneno através do olhar.
Gostava de se punir por ser vingativo e nutria uma tara não correspondida pela secretária, sua grande frustração. Apesar de calmo, irritava-se ao sentir-se fora do controle de qualquer tipo de situação – tinha, aliás, estado fora do controle ao conhecer Maria Luiza – o que logo se resolve com duas generosas doses de uísque.
Seus amigos, os dois únicos, diziam-no para procurar uma namorada ou – por ironia, talvez de algum Deus ou destino – um psicólogo.
2 – Habituée
Era um homem de muitos gostos. Gostava de provar coisas novas, mas idolatrava seus hábitos. Frequentava sempre os mesmos bares, jantava em hotéis, sempre desacompanhado e sem sequer olhar pro balcão – escorting nunca o atraiu. Comia e ia embora, sem café. Era entregue à rotina, que só era quebrada quando lhe aparecia alguma obrigação como a que sua secretária anunciara numa sexta-feira: sua mãe viajara para Angra e pedira que fosse a Niterói buscar as chaves de um apartamento que seria devolvido. Ficava sempre levemente impaciente com certos caprichos maternos que interrompiam sua rotina, mesmo não sendo caprichos e só por implicância.
O dia passara lentamente e mesmo depois de terminadas as consultas do dia, ainda era cedo. A cada minuto que passava sentia-se mais e mais incomodado com a “tarefa” que lhe fora designada; o que, na verdade, não deveria acontecer, já que recebia parte dos lucros desse aluguel. Dada a hora marcada, pegou o carro e foi.
3 – A ponte.
Adorava a paisagem da ponte Rio-Niterói. Costumava lembrar de uma namorada que dizia que “gostaria da ponte só de lembrar que gostava”. Há muito tempo não passava por ali, usava as barcas; e agora conseguia entender o que dizia Luiza.
Luiza… O nome o fez lembrar de algo relacionado à entrega do apartamento, mas acabou por perder sua atenção no trânsito parado e na música que vinha do carro vizinho. Sentia inveja dos carros que vinham pela pista de sentido oposto. A paisagem era linda, mas cansava-lhe os olhos. Gostaria de sair logo dali. Aproximou-se do pedágio, pagou e viu-se livre do trânsito. Logo estaria voltando e pensava em passar no restaurante de Sexta-feira. Era uma noite perfeita para ir à Urca.
4 – “Vou deixar a casa aberta.”
Estacionou o carro a duas quadras do prédio, quis ir caminhando para lá. Era um prédio pequeno, de cinco ou seis andares, bem charmoso. Arejado e bem simples. Identificou-se no interfone, disse ao porteiro que alguém o esperava no 302 para a entrega das chaves. Ao passar por ele ouviu um resmungo, algo que envolvia “saudades” e “nossa menina”. Achou melhor não dar trela e começou a subir as escadas. Primeiro andar, segundo andar… Corredores iguais. Chegou ao terceiro. 302. A porta estava encostada. Porta que dava acesso à sala, se bem lembrava. Tocou a campainha, esperou. Nada. Bateu na porta. Ainda, nada. Resolveu entrar. Pensou que isso seria o mais impróprio a se fazer, mas tudo o que queria era sair logo dali. Entrou, caminhou pela sala vazia e foi até a varanda, que estava aberta. Passou pela porta de vidro e viu, no canto da grade, uma menina sentada com as pernas para fora, balançando. Distraída, assustou-se com o barulho da porta. Levantou-se, desajeitada, pedindo desculpas por não ter escutado a campainha. Um fio gelado de ansiedade invadiu o corpo do rapaz quando lembrou-se do que sua mãe tinha dito a respeito da entrega do apartamento: “É uma menina, Luiza. Maria Luiza, ou algo assim”. Era ela, a menina que invadira seu consultório.
Estava diferente. Tinha os cabelos mais curtos, lisos, na altura do queixo. Estava mais magra. Apesar disso, tinha uma aparência mais saudável. Talvez estivesse realmente perturbada por algum problema, durante a visita ao seu consultório. Assim que a viu, abriu a boca para perguntar-lhe a respeito da visita que fizera ao consultório. Percebendo que ele libertaria um batalhão de perguntas, abriu a matraca antes que ele pudesse sequer respirar. “É que eu moro aqui sozinha, sabe… E esse apartamento me trouxe muitas coisas boas. Mas agora é realmente a hora de partir, preciso deixar algumas coisas pra trás. Bom, acho que tá tudo em ordem… As paredes foram pintadas de branco, como combinado, apesar de achar que o lugar fica bem mais simpático com tudo colorido.” Abaixou, pegou a mochila e um vaso de flores que estavam no chão e dirigiu se a porta, ainda falando, sem parar. Amenidades sobre o apartamento. Ele tentava interrompê-la a cada pausa que ela fazia pra respirar, mas não conseguia. Ela era mais rápida. Ele, abasbacado com toda a situação, mal percebera que já estava com as chaves do apartamento na mão e a menina já na porta, despedindo-se. “Muito obrigada, Lúcio. Lúcio, não é?” Ela parou e olhou-o por um tempo, esperando a confirmação. Ele fez que sim com a cabeça, incrédulo, e pôde perceber um disfarçado sorriso de deboche no rosto de Maria Luiza, enquanto o rastro dela descia as escadas.
Aquilo não acabaria ali. Não, aquela menina atrevida teria de escutar o que tinha a dizer e responder ao que ele perguntasse. Bateu a porta do apartamento e desceu correndo atrás dela. Quando chegou à portaria, ela fazia sinal a um táxi na rua, que parava para que ela entrasse. Saiu correndo atrás do táxi, pedindo que parasse, mas nada aconteceu. O táxi azul seguira seu caminho como se ele não existisse.